Rant: “Faz um clearblue digital!”

Juro que não percebo a obsessão que algumas pessoas têm com o Clearblue digital. Parece que este teste é a resposta para a vida, o universo e tudo o mais (e nós sabemos que não, a resposta certa é 42).
Passo a explicar. Vêm alguém colocar uma dúvida, fez um teste e não percebe se aquilo deu positivo ou não, seja porque a risca é muito clarinha e tem dúvidas, seja porque não consegue acreditar na sorte (ou no azar) que teve, seja porque simplesmente não sabe ler instruções. Não interessa. Essa pessoa coloca a foto do teste e pede opinião: está grávida ou não? É certeiro que vai haver sempre uma alminha que vai dizer para fazer um Clearblue digital.
Achas a linha muito clarinha? Faz um Clearblue digital que ele confirma. A linha não apareceu de todo? Faz um Clearblue digital que pode ser que aí dê positivo. A linha é bem visível? Parabéns, estás grávida, mas faz um Clearblue digital à mesma só porque sim. Acham esta última parte estupida? Pois, eu também. Ora se a própria pessoa admite que não há dúvidas, para quê fazer outro teste? Logo tem a confirmação mais para a frente. Enfim.
“Se calhar os outros testes são complicados e daí as pessoas preferirem o digital” pensam vocês. Sim, admito que o digital é mais óbvio, não temos de puxar pelo neurónio, está lá escarrapachado “Grávida” ou “Não Grávida”, mais simples que isto é impossível. Mas não quer dizer que o outro seja difícil, apenas temos de usar os olhinhos.
Então é assim, nos testes não digitais, o conceito é este: aparece sempre uma linha de controlo, a dizer que o teste está a ser bem feito, e depois se a urina tiver bHCG (a tal hormona da gravidez que é detectada pelos testes), vai aparecer uma segunda linha, numa área específica do teste que está assinalada. Ponto. Ou seja, aparece linha, por mais ténue que seja, é gravidez de certeza. Se ela depois vai em frente ou não já é outra história, mas naquele momento a mulher está (ou esteve) grávida. Uma linha clarinha apenas indica pouca quantidade de hormona na urina, o que pode indicar gravidez recente ou simplesmente a urina estava muito diluída.
Não vou dizer que podem não haver dúvidas: já vi certas fotos que deixam mesmo dúvida se está lá alguma linha ou se é ilusão devido à evaporação da urina. Aí, porque não usar um desses? Tem é que se ter sempre em conta que se realmente a concentração for muito baixa, o digital até pode dar um “não grávida” e afinal até estava. Eles não são infalíveis.
“Ah e tal, faz um digital daqueles das semanas”. Esta parte-me toda quando é logo a primeira proposta quando alguém acha que está grávida, mais ainda não fez teste. Principalmente quando a probabilidade não é muito grande. Sim, aconselhar alguém a gastar logo 15 ou 16 euros, havendo opções muito mais em conta, e para quê? Para ainda ficarem mais confusas?
É que esses das semanas são muito giros, pois dizem as semanas após a concepção (ou seja, quando o espermatozóide e o óvulo se encontraram). Então diz grávida de 1-2 semanas, 3 semanas ou + 3 semanas. Que não correspondem às semanas de gravidez. Para quem não sabe, a gravidez conta-se a partir da última menstruação, e normalmente apenas 14 a 15 dias depois é que acontece a concepção. Ou seja, as 2 primeiras semanas de gravidez, são semanas em que não estamos grávidas efectivamente. Quando um Clearblue diz que “está grávida de 1 ou 2 semanas” está a querer dizer na realidade “3 a 4 semanas”. E nem imaginam a confusão que isto faz a algumas pessoas…
Agora perguntam, “e como é que ele sabe as semanas?”. Sabe ao ver a cor da linha do teste, se está muito carregada ou não. Portanto pode levar ao erro, por exemplo, se a linha for ténue pois a mulher urinou 30 min antes, pode dar 3 semanas e aquilo já estar muito mais à frente. Ou ao contrário, uma grávida de gémeos, que tem muito mais hormona em circulação, pode dar mais semanas do que aquilo que está*. Sem contar com a variação normal que ocorre de mulher para mulher. Portanto sim, o teste é giro, mas para primeira escolha…..hum, não sou fã.
Atenção, não tenho nada contra a marca nem contra quem o utiliza, mas o que dá a entender é que quem faz este tipo de sugestões não percebe nada de testes de gravidez, e em vez de tirarem dúvidas ainda confundem mais quem já vem em stress. Assim não vale a pena.

*editado a 15 de Setembro: 

Tal como foi comentado por Paracetamol, ter em atenção que nem sempre as gravidezes de gémeos se traduzem numa duplicação ou mesmo aumento da produção de hormona, às vezes a produção mantém-se nos níveis tabulados (e que consideramos normais). E o contrário também se aplica, nível elevados da hormona em circulação nem sempre querem dizer "gémeos", pode simplesmente indicar que a gravidez já tem mais tempo do que se pensa (que depois é confirmado por ecografia) ou simplesmente a pessoa não faz parte da média e tem uma produção mais elevada, mas que acaba por ser perfeitamente normal (excepto se forem valores astronómicos, mas aí já é outro assunto).

Portanto o que se retém daqui? Gémeos PODEM levar a falsos resultados neste tipo de testes, com ênfase no "podem".

Comentários

  1. Quero só dizer que o número de embriões não é directamente proporcional à concentração de bHCG. Existem gravidezes múltiplas com concentrações de bHCG dentro dos parâmetros considerados "normais" e gravidezes singulares com concentrações de bHCG consideradas acima da média. Não há uma correlação directa. É a Biologia (a Química teria um carácter mais fiável)...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É um bom comentário sim. Estive a reler o que escrevi, e de facto não transmite bem essa informação. A minha ideia era mais comentar a possibilidade de numa gravidez múltipla haver uma maior produção da hormona, o que levará a erros na interpretação do resultado, mas claro, salvaguardando que nem sempre tal acontece e além disso, mesmo em gravidezes com um único bebé pode haver maior ou menor produção da hormona relativamente às médias pelas quais nos guiamos... ou seja, a biologia é tramada sim!

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Uma Nova Aventura

Flashback: Como nos decidimos a ter um filho